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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010




Romeu


O dia estava começando não havia ninguém ainda naquele horário transitando pelas ruas.
Marcele morava naquele bairro, um bairro de casa simples, com poucos moradores, trabalhava numa perfumaria do outro lado da cidade, tinha que pegar um ônibus que a deixava na porta da perfumaria, era moça muito jovem, estava com 18 anos, trabalhava durante o dia e estudava a noite, tinha um namorado um tanto esquisito e muito valente,mas Marcele o achava o máximo,sabia que as meninas eram loucas por ele e o seu nome era Romeu.
A única coisa que a preocupava era saber que seus pais não aprovavam o namoro dela com aquele rapaz, diziam que ele era muito esquisito para seus 20 anos, porém ela já havia decidido que não terminaria o namoro e que se os pais não permitissem fugiria com ele, iriam morar noutra cidade, em outro bairro, qualquer coisa, mas não se separaria dele.
Enfim depois de um dia de trabalho, aliás trabalho bem puxado para Marcele, ela tinha que cuidar de todo estoque, arrumar as prateleiras, atender a clientela e ainda por cima trabalhar no caixa. Naquele dia estava muito cansada, ainda teria que ir direto para escola. Mas ao sair da loja deu de cara com Romeu, ele a aguardava do outro lado da calçada, estava com uma aparência horrível, parecia que não dormia há dias, umas olheiras, foi quando Marcele atravessou a rua e se aproximou dele, ela não gostava quando ele aparecia assim do nada e ainda por cima com aquela aparência deprimente, então Marcele disse:
- Romeu, por que você veio hoje aqui? Não sabe que tenho que ir para escola e que durante a semana, já combinamos que não vamos nos encontrar? – e tem mais você também tinha aula hoje!
Romeu não gostava de ser chamado a atenção, principalmente de Marcele que parecia sempre querer colocá-lo para baixo, ela sempre tinha razão, era o que sua mãe dizia então ele respondeu.
- Você já vai começar? Acha que vim até aqui fazer o quê?
- Não sei, mas você sabe que tenho meus compromissos e mesmo gostando de você, não quero abrir mão dos meus sonhos.
Romeu sabia como envolver Marcele, sabia que ela era muito apaixonada e que logo - logo, já esqueceria era só lhe dar um pouco de carinho e ela já se derretia toda, então foi o que fez, agarrou Marcele pela cintura e lhe deu um beijo e depois outro, ela tentava reclamar e ele a agarrava com mais força, até que ela se rendeu e correspondeu ao seu beijo, foi quando ele lhe disse:
- Estou precisando de você meu amor. – Disse ele passando os dedos em seus lábios e beijando novamente sua boca. - Preciso que me ajude, estou precisando de uma grana e como você sabe ainda não consegui arrumar nenhum trabalho, mas assim que estiver trabalhando te devolvo tudo e em dobro.
Romeu beijou-a novamente, ele sabia que isso a deixava cega. Ele era um rapaz muito bonito, apesar de ser meio largadão, tinha lindos traços, moreno claro, alto, 1,80 de altura, porte atlético, cabelos cacheados, as meninas achavam o máximo, mas de uma personalidade fraca, se envolvia com um tipo de gente que a mãe dele não aprovava.
- Bom mas quanto você precisa? Não sei se vou ter dinheiro para te emprestar.
- Não é muito não gatinha, é suficiente para pagar uma dívida que fiz com um camarada meu, uns duzentos reais. – Disse Romeu olhando para o chão pois sabia que era uma quantia até grande pelo pouco salário de Marcele.
- Bom aqui não tenho, mas se você puder esperar, amanhã passo no banco e pego o dinheiro da minha poupança.
- Tudo bem! Agora vamos já tem gente de olho, vendo nós dois aqui parados. Foram caminhando de mãos dadas.
- Romeu hoje quando estava saindo de casa percebi que havia alguém na esquina, mas fingi que não vi e vim trabalhar, mas parecia que ele estava observando todos os meus passos, achei até que me seguia. - Marcele preocupada e continuou – preciso que me diga, se você está envolvido em alguma encrenca, alguma coisa que eu não saiba e que não quer me contar.
- Não, não estou envolvido com nada gata! Ele acompanhou Marcele até a sua casa, se despediram no portão.
Marcele entrou e sua mãe Dona Graça, já foi falando:
- Aposto que estava com aquele moleque, que não quer saber de trabalhar e ainda fica atrapalhando sua vida, indo ao seu trabalho só para você não estudar, minha filha quando vai perceber que Romeu não serve pra você?
- Mãe por favor, estou cansada e vou dormir, boa noite.
Marcele foi para o seu quarto estava confusa, amava Romeu mas “tinha que concordar, seu namoro ia de mal a pior”- pensou Marcele, depois de tomar um banho foi se deitar, tentar dormir, pegou um livro para ler, não conseguiu então pegou seu diário, seu companheiro inseparável de todas as noites, fez algumas anotações e acabou cochilando, foi quando acordou com um barulho na janela, levantou e se aproximou mais da janela, olhou pela fresta e a única coisa que viu foi a sombra de alguém que se afastava correndo.
No outro dia bem cedo, levantou-se para trabalhar, como a maioria dos adolescentes nesta idade, acordou de mal humor, passou pela cozinha, sua mãe estava preparando o café. Dona Graça a cumprimentou, mas não houve resposta, ela simplesmente bateu a porta e saiu, sua mãe ficou chateada então ela pensou: “esses jovens de hoje, vivem o presente, como se fosse o último dia de suas vidas, são desesperados, querem tudo pra ontem”.
Marcele já estava na rua, quando percebeu que aquele mesmo sujeito do dia anterior, estava por ali, sentiu um frio na espinha ao perceber que estava indo em sua direção, seu coração disparou, suas pernas começaram a tremer, foi quando o rapaz de gestos afeminados se aproximou e disse:
- Escuta aqui menina, trate de se afastar do Romeu, porque senão vai sobrar pra você. - disse o rapaz de roupa estranha – Marcele percebeu que ele não estava brincando e que seu olhar era de muita raiva, ela com medo, simplesmente abaixou a cabeça e começou a andar mais rápido.
Naquele dia Marcele nem conseguiu trabalhar direito, lembrou que tinha que passar no banco e pegar o dinheiro que havia prometido Romeu, pois mais tarde ele passaria para pegar, na hora do almoço foi até a agência de seu banco e qual não foi a surpresa quando olhou seu extrato e viu que não tinha a quantia que prometeu, ficou sem ação, pensou – “ E agora, o que vou dizer para ele?” – começou a chorar, só então percebeu o quanto tinha medo de Romeu.
Seu celular começou a tocar, ela viu que era ele, desligou rapidamente, começou a entrar em pânico, pois sabia como Romeu era nervoso, ao chegar na perfumaria, pediu para ir embora, disse que não estava se sentindo bem, no caminho de volta para casa, tinha a impressão de que estava sendo seguida, ao chegar na sua casa, entrou rapidamente ainda deu uma olhada para os lados para ver se alguém a seguia, mas não viu ninguém.
Sua mãe quando a viu naquele horário estranhou, então perguntou:
- Esse horário em casa! Aconteceu alguma coisa?
- Não mãe, não aconteceu nada.
Marcele foi para seu quarto, seu celular começou a tocar novamente, era ele, ficou apavorada, tinha certeza que logo mais ele apareceria para pedir o dinheiro e não demorou muito ela ouviu que alguém batia palmas em frente ao portão, sua mãe foi atender, era Romeu, ela ouviu quando sua mãe disse que ele aguardasse, que iria chamá-la.
Ela saiu do quarto sua mãe já estava entrando e disse que ela fosse logo atender Romeu, foi quando Marcele desabou, começou a chorar e a dizer que a mãe tinha razão, pois Romeu se tornara muito violento e queria que ela arrumasse um dinheiro para ele, só que ela não tinha e agora não sabia o que dizer a ele, tinha medo de sua reação.
Sua mãe ouvia tudo estarrecida, sabia que mais dia menos dia isso iria acabar acontecendo, porque ela sabia que Romeu não era gente boa, então foi quando Marcele contou o que tinha acontecido de manhã, falou do rapaz mal encarado, das sua ameaças e que agora ela estava com muito medo, pois não sabia o que Romeu poderia ter aprontado.
Sua mãe mais uma vez falou par Marcele que tinha avisado para ela se afastar e que ela não tinha dado ouvidos, agora era tarde, tinha que enfrentar Romeu e dizer que não tinha o dinheiro e que não queria mais saber dele.
Ela criou coragem e se dirigiu a porta, teria que enfrentar Romeu, não tinha outro jeito, arrumou seus cabelos, contou até três e saiu, qual não foi a surpresa, mas ao olhar aqueles olhos verdes,quase esqueceu de tudo que vivera até aquele momento, mas não voltaria atrás, já estava decidida, ao abrir o portão ela viu surgir atrás de Romeu, aquele rapaz que já a havia ameaçado de manhã, ele chegou bem perto dele e disse:
- Nunca pensei que fosse me trocar por outra, e as nossas juras de amor? Por que fez isto comigo?
Marcele ficou ouvindo tudo, sem saber o que dizer, Romeu então tentou disfarçar, disse que aquele cara era um louco e que ele o estava confundindo, mas o rapaz mais uma vez insistiu e disse:
- Eu descobri tudo Romeu, você está de viagem marcada, sei que veio aqui hoje para pegar o dinheiro e fugir, você não podia ter feito isto comigo.
O rapaz começou a chorar e de repente ele pegou uma arma do casaco e deu dois tiros em Romeu e em seguida olhou bem para Marcele, fez menção de atirar, mas não teve coragem então, se matou também, Marcele não teve tempo nem de abrir a boca.
Ao olhar aquela, cena ela não sabia o que pensar, foi quando Romeu antes de morrer ainda olhando para Marcele falou:
- Eu ia te contar.


01/2010
Histórias que o povo conta
Mora Alves
www.moraalves.com

domingo, 7 de fevereiro de 2010




OPABA - ILHÉUS

DA SACADA DO HOTEL OPABA
VEJO A LUA LÁ NO CÉU.
FAZENDO UM REFLEXO NO MAR,
COMO É BONITO DE SE OLHAR.

SEU MAR, SEUS COQUEIROS
UM POVO TÃO HOSPEDEIRO
COMO NUM SONHO ENCANTADO
ME ENCONTRO AQUI EM ILHÉUS.

TERRA DE JORGE AMADO
QUE DIA ABENÇOADO,
PARA ILHÉUS UM DIA AINDA QUERO VOLTAR.

O VERDE DO MAR, O BARULHO
DAS ONDAS, MUQUECA DE PEIXE,
CARURÚ, VATAPÁ NÃO TEM
COMO DISPENSAR.

DEITADA NA REDE QUERO FICAR
APRECIANDO O VERDE DO MAR,
COM TODA CERTEZA PRA ILHÉUS
UM DIA QUERO VOLTAR.


Moraalves
03/12/200

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Viajo porque também preciso

Cissa de Oliveira


Adeus Beto Sicupira, seja lá você quem for, de verdade. O nosso amor unilateral foi mesmo muito chato, já que a gente nem sequer nunca se soube.

... depois, agora tem o Karim Aïnous, escrito assim mesmo, com uma grafia entre o Árabe e o Francês, mas que no fundo é um conterrâneo meu, lá pras bandas do Ceará, e que mora por aí, sabe-se lá onde. Ele não tem olhos cor de bila, não, feito os seus, na fotografia da revista. Aliás, tchau, Beto!

A dama da noite está perfumada daquele cheiro doce e difícil de esquecer. É como música que “gruda feito chiclete, o que é um jeito de grudar o filme nas pessoas”. Palavras de Karim Aïnous”, provavelmente falando em trilha sonora. O calor continua matando, direta e indiretamente, sabe como é, com as chuvas, infelizmente. Assim, com tanta catástrofe, não há poesia que resista, nem fé.

Eu continuo gostando de doce de leite – menos efêmero do que o Beto –, herege na compreensão dos santos terrenos - ou seria correto escrever “terráquios”? -, com mil coisas por terminar, outras mil por começar, e cada vez menos disponível para a morte, digo da grande morte. Mas o que eu queria falar mesmo é das bochechas do Karim. Ô meu deusin... e do olhar tão longe, tão perto, de perdido em algum ponto que se guarda em si mesmo.

“Viajo porque preciso, volto porque te amo”. - Beleeeeza, como dizem os alunos; não deixarei de assistir a essa carta de amor nunca enviada, na verdade um filme de Karim Aïnous. Segundo o próprio, assim diz o jornal, uma grande brincadeira. Então viva a brincadeira, as viagens reais, também as imaginárias, e o afastamento entre as pessoas, garantia de encantamento, mesmo que unilateral. A maior prova disso é que o Beto continua lá – na fotografia -, sorrindo, como se não tivesse levado um pé na bunda, e o Karim, insondável, tão insondável que, pudesse, eu perguntava: - Que foi “Cabra véi”? Tu passou gelol demais, foi?

Eu estou com raiva. A culpa não é do Karim, nem minha, nem de ninguém (aqui se inclui o Sicupira). Eu sei, isso está parecendo o samba do crioulo doido, e então talvez seja a hora de prometer a mim mesma me redimir até do que eu não fiz, por mais que em tempo algum vá usar o cabelo cortado “bem batidinho” como dizia a minha tia, nem fazer apenas o que é útil, prático e esperado. Viajar é preciso.

E antes que me esqueça, uma careta bem feia para os maldosos, esses feios de alma.

Cissa de Oliveira


HISTÓRIAS QUE O POVO CONTA



O trono







Menina da cidade, corpo franzino, pra dizer a verdade nem feia nem bonita.
Olhos esbugalhados, seu pai tinha pinta de galã, mas quando sorria tinha uma janela na frente que dava pra ver o céu, o céu da boca e pra completar ainda usava óculos escuros.
Chegaram de madrugada no sertão, só ouviam o galo cantando, a menina cansada da viagem, se jogou na rede, pediu um cobertor, a tia já foi logo dizendo:” aqui não tem nada disso não.”
Logo de manhã a menina de corpo franzino se levantou, o corpo doía, achou aquele lugar muito estranho, as paredes da casa tinham um monte de ganchos, principalmente nos quartos, e ainda por cima na cozinha tinha um fogão enorme de cimento, saia uma fumaça, “gente mais esquisita esta” - pensou a menina.
Ao andar pela casa deu de cara com a tia, perguntou onde ficava o banheiro, a tia respondeu com num tom de deboche :
_ Menina, aqui ninguém usa isso não!
-- E agora onde vou?
A tia espantada com a pergunta da menina, já que para eles tudo era tão normal, ser da maneira que era, achou a menina exigente, respondeu:
- Menina, tu tens o céu, as estrelas e a natureza, tem esse mundão todo lá fora que é todo seu, o que mais você quer?
A menina quase chorou, mas correu para o meio do mato para fazer suas necessidades.
E foi então que pensou:
“ Do que adianta o céu, as estrelas se não tenho meu trono para me sentar?”

O1/2010
MORAALVES



01/2010

MORAALVES